30 milhões de brasileiros (15,5% da população) vivem com menos de R$ 140 ao mês. É a régua de corte oficial para caracterizar nossos pobres e miseráveis. Há dez anos, eram 57 milhões (33,3%). Resgatá-los da exclusão para um piso mínimo de sobrevivência (bota mínimo nisso) exigiria adicionar R$ 21,3 bilhões ao ano aos R$ 13,4 bilhões aplicados no Bolsa Família (cálculos da FGV). Mal comparando: representa pouco mais que dois meses de juros pagos aos rentistas dependurados na dívida pública, que recebem juros da ordem de R$ 15 bilhões por mês. Grosseiramente: uma redução da ordem de dois pontos na taxa de juros poderia contribuir para zerar a miséria brasileira. A ver. (Carta Maior; informações Folha, Estadão; 14-11)
"UM FEROZ PRECONCEITO CONTRA A CIDADANIA DOS MISERÁVEIS"
O Brasil elegeu, por dois mandatos, um ex-metalúrgico como presidente da República. Agora elege uma mulher. Ambos de centro-esquerda. Para quem assistiu de fora a eleição de Dilma Rousseff e os dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pode parecer que o país avança celeremente para uma civilizada socialdemocracia e busca com ardor o Estado de bem-estar social. Para quem assistiu de dentro, todavia, é impossível deixar de registrar a feroz resistência conservadora à ascensão de uma imensa massa de miseráveis à cidadania.
Ocorre hoje um grande descompasso entre classes em movimento e as que mantêm o status quo; e, em consequência de uma realidade anterior, onde a concentração de renda pessoal se refletia em forte concentração da renda federativa, há também um descompasso entre regiões em movimento, tiradas da miséria junto com a massa de beneficiados pelo Bolsa Família ou por outros programas sociais com efeito de distribuição de renda, e outras que pretendem manter a hegemonia. A redução da desigualdade tem trazido à tona os piores preconceitos das classes médias tradicionais e das elites do país não apenas em relação às pessoas que ascendem da mais baixa escala da pirâmide social, mas preconceitos que transbordam para as regiões que, tradicionalmente miseráveis, hoje crescem a taxas chinesas.
A onda de preconceito contra os nordestinos, por exemplo, é semelhante ao preconceito em estado puro jogado pelos setores tradicionais no presidente Luiz Inácio Lula da Silva e na própria eleita, Dilma Rousseff, durante a campanha eleitoral. É a expressão do temor de que os "de baixo", embora ainda em condições inferiores às das classes tradicionais, possam ameaçar uma estabilidade que não apenas é econômica, mas que no imaginário social é também de poder e status.
São Paulo foi a expressão mais acabada da polarização eleitoral entre pobres de um lado, e classe média e ricos de outro. Os primeiros aderiram a Dilma; os últimos, mesmo uma parcela de classe média paulista que foi PT na origem, reforçaram José Serra (PSDB). A partir de agora, pode também polarizar a mudança política que fatalmente será descortinada, à medida que avança o processo de distribuição regional de renda e de aumento do poder aquisitivo das classes mais pobres. A hegemonia política paulista está em questão desde as eleições de 2006 - e Lula foi poupado do desgaste de ter origem política em São Paulo porque era também destinatário do preconceito de ter nascido no Nordeste; e, principalmente, porque foi o responsável pela desconcentração regional de renda.
Com a expansão do eleitorado petista no Norte e no Nordeste do país, houve uma natural perda de força dos petistas paulistas, diante do PT nacional. Do ponto de vista regional, o voto está procedendo a mudanças na formação histórica do PT, em que São Paulo era o centro do poder político do partido. Isso não apenas pelo que ganha no Nordeste, mas pelo que não ganha em São Paulo: o partido estadual tem dificuldade de romper o bloqueio tucano e também de atrair de novos quadros, que possam vencer a resistência do eleitorado paulista ao petismo.
No caso do PSDB, todavia, a quebra da hegemonia paulista será mais complicada. Os tucanos continuam fortes no Estado, têm representação expressiva na bancada federal e há cinco eleições vencem a disputa pelo governo do Estado. No resto no do país, têm perdido espaço. Parte do PSDB concorda com o diagnóstico de que a excessiva paulistização do partido, se consolida seu poder no Estado mais rico da Federação, tem sido um dos responsáveis pelo seu encolhimento no resto do Brasil. Mas é difícil colocar essa disputa interna no nível da racionalidade, até porque o partido nacional não pode abrir mão do trunfo de estar estabelecido em território paulista; e, de outro lado, o partido de Serra tem uma grande dificuldade de debate interno - como disse o governador Alberto Goldman em entrevista ao Valor, é um partido com cabeça e sem corpo, isto é, tem mais caciques do que base. Não há experiência anterior de agregação de todos os setores do partido para discutir uma "refundação" e diretrizes que permitam sair do enclave paulista. Não há experiência de debate programático. E aí o presidente Fernando Henrique Cardoso tem toda razão: o PSDB assumiu substância ideológica apenas ao longo de seu governo. É essa a história do PSDB. A política de abertura do país à globalização, a privatização de estatais e a redução do Estado foram princípios que se incorporaram ao partido conforme foram sendo assumidos como políticas de Estado pelo governo tucano.
Todos os partidos, sem exceção, estão diante de um quadro de profundas mudanças no país e terão que se adaptar a isso. Fora a mobilidade social e regional que ocorreu no período, houve nas últimas décadas um grande avanço de escolaridade. A isso, os programas de transferência de renda agregaram consciência de direitos de cidadania. O país é outro. Não se ganha mais eleição com preconceito - até porque o voto do alvo do preconceito tem o mesmo valor que o voto da velha elite. Se os grandes partidos não se assumirem ideologicamente, outros, menores, tomarão o seu espaço.
O assanhamento dos tucanos chega ao ponto de David Zylbersztajn, ex-genro de FHC que assessora ao mesmo tempo a campanha de José Serra e multinacionais de energia, inserir uma informação falsa no elogio ao regime das concessões, adotado quando era presidente da Agência Nacional do Petróleo. Os lobbies conservadores e anti-nacionais reunidos em torno da candidatura de José Serra à presidência já se atrevem a defender sem disfarces um retorno ao entreguismo que marcou a gestão do petróleo brasileiro nos oito anos do governo de Fernando Henrique Cardoso. O artigo é de Igor Fuser.
Igor Fuser
No embalo do segundo turno, os lobbies conservadores e anti-nacionais reunidos em torno da candidatura de José Serra à presidência já se atrevem a defender sem disfarces um retorno ao entreguismo que marcou a gestão do petróleo brasileiro nos oito anos do governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC). Eles querem a abertura irrestrita das fabulosas reservas do pré-sal brasileiro, a maior descoberta petrolífera dos últimos trinta anos no mundo inteiro, à voracidade das empresas multinacionais. O assanhamento é tanto que, em entrevista ao jornal Valor, David Zylbersztajn, “assessor técnico” da campanha de Serra para a área de energia, distorceu completamente a realidade dos fatos com um grosseiro erro de informação ao defender que, num eventual governo demo-tucano, a exploração do pré-sal ocorra nos marcos do atual regime de concessões, em escandaloso benefício do capital transnacional.
O argumento apresentado por Zylbersztajn, ex-genro de FHC e presidente da Agência Nacional do Petróleo (ANP) quando se realizou o primeiro leilão de reservas brasileiras entregues ao capital estrangeiro, em 1999, tem como foco uma questão contábil. De acordo com ele, o atual regime de concessões é melhor que o de partilha porque que o governo recebe antecipadamente o dinheiro referente ao bônus de assinatura, quantia cobrada às empresas em troca do direito de explorar as reservas. “No sistema de partilha, você só vai receber lá na frente”, alegou. “Depois de ter descontado o que gastou com o campo, vai receber sua parte em óleo, que vai ter que ser vendido. Isso só vai gerar alguma coisa lá na frente. Enquanto hoje, se licitar um campo, o governo coloca dinheiro no Tesouro hoje mesmo", disse.
Uma simples consulta ao Projeto de Lei 5.938, que cria o regime de partilha, é suficiente para revelar a falsidade do raciocínio apresentado por Zylbersztajn contra o regime de partilha. No seu capítulo II, parágrafo XII, o projeto do atual governo afirma textualmente que o bônus de assinatura é “um valor fixo devido à União pelo contratado, a ser pago no ato da celebração e nos termos do respeito do contrato de partilha da produção”. Essa norma é reiterada mais adiante, no capítulo V, parágrafo II, que trata dos editais de licitação. Como se pode conceber que um especialista ignore uma regra formulada em termos tão claros?
Curiosamente, o mesmo Zylbersztajn se mostra muito zeloso em esclarecer que suas declarações não representam o ponto de vista oficial da campanha de Serra. "A minha opinião é pelo lado técnico, mas dentro do contexto político, eu não sei”, ressalvou, para em seguida voltar à carga contra o regime de partilha: “Eu aconselharia a deixar o que está funcionando bem do jeito que está. Se houvesse justificativa para mudar, tudo bem", insistiu, deixando claro que não vê nenhum motivo para a troca do regime de concessões pelo de partilha, como propõe o governo Lula e sua candidata, Dilma Rousseff.
A linguagem escorregadia tem a ver com o cuidado de Serra em evitar uma postura de ataque frontal à mudança nas regras do pré-sal. Em vez de expor abertamente suas intenções, o candidato tucano prefere manifestar “dúvidas” sobre a utilidade do regime de partilha. Enquanto isso, o centro de estudos do PSDB, Instituto Teotônio Vilela, bombardeia sem sutilezas o projeto governista. Em entrevista ao jornal O Globo, em abril, o deputado federal Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB-ES), porta-voz oficioso dos tucanos para os assuntos petroleiros, chamou de “retrocesso histórico” a lei que retira o pré-sal do sistema de concessões e o transfere ao controle estatal por meio de uma nova empresa, a Petro-Sal. Nas suas palavras, trata-se de um “erro estratégico” comparável à fracassada Lei de Informática, de 1984.
Até o dia 3 de outubro, esse assunto era mantido em surdina pelos tucanos, quase como um tabu. Agora que o assessor de Serra saiu a campo em defesa da posição privatista, o candidato corre o risco de ser cobrado pelos seus adversários em uma questão crucial para o desenvolvimento do país e o bem-estar dos brasileiros. No caso de Zylbersztajn, a margem de opção é nula. Como presidente da empresa de consultoria DZ Negócios com Energia, voltada para a prestação de serviços a “investidores interessados no mercado brasileiro”, conforme o site da firma, ele tem mesmo é que defender os interesses dos seus clientes estrangeiros, nem sempre coincidentes com os interesses da sociedade brasileira. Entre os seus clientes está a AES Eletropaulo, companhia de eletricidade paulista privatizada em favor do capital estadunidense durante o governo tucano de Mário Covas.
Para que se compreenda o que está em jogo no pré-sal, recorde-se que, no regime de concessões, implantado por FHC, todo o petróleo retirado do subsolo se torna, automaticamente, propriedade da empresa concessionária, que pode fazer com ele o que quiser (salvo algumas restrições só aplicáveis em casos excepcionais). Atualmente, as empresas estrangeiras é que determinam o ritmo de exploração das reservas. Elas também escolhem, por sua própria conta, os fornecedores de equipamentos, em geral importados. Como retribuição ao governo, essas concessionárias se limitam a pagar uma porcentagem sobre o valor da produção (os royalties) e mais algumas taxas, o que totaliza, no máximo, 40% da renda obtida com o petróleo. Esse é um percentual altamente vantajoso, comparado com os 80% cobrados pelos maiores produtores mundiais.
Já no regime de partilha, tal como propõe o governo, a União mantém a propriedade do petróleo obtido, o que lhe dá o direito de ditar a política de exploração. O volume produzido e a duração das reservas podem ser administrados de acordo com objetivos de política econômica. E o Estado é quem estabelece as normas para os investimentos e a política de compras, a partir de metas voltadas para o desenvolvimento de cadeias produtivas nacionais, criação de empregos e aperfeiçoamento tecnológico. O regime de partilha, adotado atualmente por cerca de 40 países, representa, historicamente, um avanço em relação ao sistema neocolonial das concessões, que vigorou na primeira metade do século XX, época em que a indústria do petróleo era dominada pelo famoso cartel das “Sete Irmãs”.
A participação nacional na riqueza do petróleo será sensivelmente maior no caso de aprovação das novas normas defendidas pelo governo Lula. De acordo com os projetos de lei em discussão no Congresso, a estatal Petro-Sal controlará a exploração dos blocos petrolíferos do pré-sal, garantindo à Petrobras uma participação mínima de 30% em cada área de produção. Mais importante: caberá à empresa brasileira a função de operadora de todas as áreas de extração, de modo a garantir que as decisões estejam afinadas com os objetivos do desenvolvimento nacional.
Os royalties aumentam para 15% e a participação estatal na renda petroleira – aí incluídos União, Estados e municípios, segundo regras que ainda estão em debate – ultrapassa, de longe, os 50%. O aumento dessa fatia se deve, em parte, à recente capitalização da Petrobras, quando a participação acionária da União pulou dos 32% a que foi reduzida nos tempos de FHC para os atuais 48%. Tudo isso, sem a necessidade de gastar um só centavo do dinheiro público, pois a União utilizou como moeda o petróleo que ainda repousa no fundo do mar.
Zylbersztajn encara essas proezas com azedume, e parece até torcer para que tudo dê errado. Na entrevista ao Valor, profetizou que a Petro-Sal será um antro de corrupção e reprovou a presença de uma estatal brasileira no comércio de petróleo – algo que a Petrobras já vem fazendo há muito tempo, com notável eficiência. Na realidade, a mudança que o governo Lula está propondo significa um avanço bem modesto, comparado com as propostas mais ousadas defendidas por um conjunto de entidades e movimentos sociais agrupados na campanha “O Petróleo Tem Que Ser Nosso”, como a Federação Única dos Petroleiros (FUP) e a Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet). Um projeto de lei alternativo, assinado por 21 congressistas, do PT e do PCdoB, prevê que a Petrobras volte a ter 100% do seu capital nas mãos do Estado e que sejam anulados os contratos de exploração petroleira por companhias privadas feitos após a promulgação da Lei 9.478, de 1997.
O projeto do governo representa uma posição intermediária entre o marco regulatório neoliberal adotado por FHC e as posições mais nacionalistas defendidas pelos sindicatos e outros atores no campo popular. Para se ter uma idéia, nas áreas do pré-sal já leiloadas continuará em vigor o regime das concessões, em estrito cumprimento aos contratos já firmados. Dessa forma, se as coisas correrem conforme os planos traçados pela equipe de Lula, o petróleo brasileiro do pré-sal seguirá como um negócio muito atraente para os investidores estrangeiros. Que o digam os chineses, cada vez mais confiantes no Brasil como um parceiro indispensável perante as incertezas do abastecimento de energia no futuro.
Ainda assim, há quem se mostre insatisfeito. Inclusive brasileiros, como Zylbersztajn. Para esses – os executivos das multinacionais petroleiras e seu séquito de consultores, acadêmicos e jornalistas – a passagem de Serra ao segundo turno é um fator de alento. Quem sabe, imaginam, seja possível retomar o fio da história no ponto em que estava em janeiro de 2002, quando o banqueiro (recentemente falecido) Francisco Gros, em seu primeiro ato após a posse como presidente da Petrobras, anunciou aos investidores em Houston, nos EUA, que sua missão era privatizar a empresa. Seu antecessor, Henri Philippe Reichstul, tentou – e quase conseguiu – trocar o nome da estatal para Petrobrax, supostamente mais agradável aos ouvidos dos potenciais compradores em uma planejada privatização. Agora, com as reservas do pré-sal avaliadas em centenas de bilhões de dólares, o prato se tornou bem mais suculento. E o apetite, maior.
(*) Igor Fuser é jornalista, professor na Faculdade Cásper Líbero, doutorando em Ciência Política na USP e autor do livro “Petróleo e Poder – O Envolvimento Militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico” (Editora Unesp, 2008).
O tema central das eleições deste ano, protagonizado pelos dois blocos de forças que têm ocupado o campo político, remete a dois projetos de país. Um, posto em prática quando os tucanos-demistas tiveram dois mandatos e o apoio total do grande empresariado, do capital internacional e da velha mídia, para realizar o governo que lhes parecia o melhor para o Brasil. O outro, realizado nestes oito anos, pelo governo Lula, que conta com o maior apoio popular que qualquer governo chegou a ter e a maior hostilidade da velha mídia.
Depois de esconder FHC e seu governo, parece que a oposição se arriscará a aceitar a comparação dos anos tucanos com os anos petistas.
Inicialmente os tucanos criticavam o governo Lula e suas políticas sociais como “esmolas” que compravam a consciência dos mais pobres. Quando se deram conta – especialmente depois da derrota em 2006, quando acreditavam que tinha o governo Lula contra as cordas – que a realidade social do país tinha mudado, passaram à cantilena de que os aspectos positivos do governo Lula tinham sido conquistados por eles: tanto a política econômica, como a social – esta supostamente iniciada por Ruth Cardoso.
Nunca se atreveram a tentar provar isso na prática. Na realidade, o Brasil que saiu do governo FHC era mais desigual, mais injusto, mais concentrador de renda e de poder. Além de que havia produzido três crises ao fragilizar a economia, a última das quais foi profunda e prolongada, da qual o Brasil só saiu no governo Lula. Por essa razão, também, no final do seu governo FHC, mesmo contando com toda a imprensa a seu favor, tinha 50,9% de rejeição.
Quando o programa do PT do final do ano passado fez a comparação entre os resultados dos dois governos, veio o pânico nas hostes oposicionistas, sobre o que os esperava na campanha eleitoral. Enquanto um FHC desmoralizado bradava pela necessidade dos tucanos aceitarem a comparação, estes fugiram da raia, e esconderam ao tucano do seu programa eleitoral – ao qual levaram a imagem positiva de Lula.
Agora veremos que mágica conseguem fazer para resgatar FHC, se é que realmente vão fazê-lo. A comparação é tudo o que a campanha da Dilma quer. Ela foi a coordenadora do governo, que teve um sucesso ininterrupto de 5 anos, conquistando 80% de aprovação e apenas 4% de rejeição para Lula. Dilma representa a continuidade e ao aprofundamento das transformações iniciadas nesses 8 anos, que pela primeira vez diminuíram a desigualdade no Brasil.
Esse o grande embate ao que a oposição tenta fugir, buscar outras vias de fazer campanha – com a sórdida utilização de pastores evangélicos explorando os sentimentos conservadores de setores da população – que não a confrontação política. Mas esse é o grande tema. Não porque remeta ao passado, mas porque representa hoje, o mesmo enfrentamento de blocos de forças com os mesmos interesses diferenciados que levaram o Brasil a ser mais injusto na década de 90 e a avançar significativamente na superação das injustiças e das desigualdades na primeira década deste século.
"Marina, morena Marina, você se pintou" - diz a canção de Caymmi. Mas é provável, Marina, que pintaram você. Era a candidata ideal: mulher, militante, ecológica e socialmente comprometida com o "grito da Terra e o grito dos pobres", como diz Leonardo.
Dizem que escolheu o partido errado. Pode ser. Mas, por outro lado, o que é certo neste confuso tempo de partidos gelatinosos, de alianças surreais e de pragmatismo hiperbólico? Quem pode atirar a primeira pedra no que diz respeito a escolhas partidárias? Mas ainda assim, Marina, sua candidatura estava fadada a não decolar. Não pela causa que defende, não pela grandeza de sua figura. Mas pelo fato de que as verdadeiras causas que afetam a população do Brasil não interessam aos financiadores de campanha, às elites e aos seus meios de comunicação. A batalha não era para ser sua. Era de Dilma contra Serra. Do governo Lula contra o governo do PSDB/DEM. Assim decidiram as "famiglias" que controlam a informação no país. E elas não só decidiram quem iria duelar, mas também quiseram definir o vencedor. O Estadão dixit: Serra deve ser eleito.
Mas a estratégia de reconduzir ao poder a velha aliança PSDB/DEM estava fazendo água. O povo insistia em confirmar não a sua preferência por Dilma, mas seu apreço pelo Lula. O que, é claro, se revertia em intenção de voto em sua candidata. Mas "os filhos das trevas são mais espertos do que os filhos da luz". Sacaram da manga um ás escondido. Usar a Marina como trampolim para levar o tucano para o segundo turno e ganhar tempo para a guerra suja.
Marina, você, cujo coração é vermelho e verde, foi pintada de azul. "Azul tucano". Deram-lhe o espaço que sua causa nunca teve, que sua luta junto aos seringueiros e contra as elites rurais jamais alcançaria nos grandes meios de comunicação. A Globo nunca esteve ao seu lado. A Veja, a FSP, o Estadão jamais se preocuparam com a ecologia profunda. Eles sempre foram, e ainda são, seus e nossos inimigos viscerais.
Mas a estratégia deu certo. Serra foi para o segundo turno, e a mídia não cansa de propagar a "vitória da Marina". Não aceite esse presente de grego. Hão de descartá-la assim que você falar qual é exatamente a sua luta e contra quem ela se dirige.
"Marina, você faça tudo, mas faça o favor": não deixe que a pintem de azul tucano. Sua história não permite isso. E não deixe que seus eleitores se iludam acreditando que você está mais perto de Serra do que de Dilma. Que não pensem que sua luta pode torná-la neutra ou que pensem que para você "tanto faz". Que os percalços e dificuldades que você teve no Governo Lula não a façam esquecer os 8 anos de FHC e os 500 anos de domínio absoluto da Casagrande no país cuja maioria vive na senzala. Não deixe que pintem "esse rosto que o povo gosta, que gosta e é só dele".
Dilma, admitamos, não é a candidata de nossos sonhos. Mas, Serra o é de nossos mais terríveis pesadelos. Ajude-nos a enfrentá-lo. Você não precisa dos paparicos da elite brasileira e de seus meios de comunicação. "Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu".
* Professor de filosofia da UFES, autor de Iara e a Arca da Filosofia (Mercuryo Jovem), dentre outros
É interessante como a categoria dos profissionais da educação tem se portado neste período eleitoral. O colunista da Gazeta do Povo, Celso Nascimento, comentou na quinta feira em sua coluna o episódio em que o candidato do PSDB utiliza a expressão “laranjas podres” para se referir aos professores que exercem o seu direito democrático de opinar. Para Celso “as palavras de Richa tornaram-se abrangentes para toda a categoria e se espalharam como rastilho de pólvora, justamente num dos segmentos mais importantes do eleitorado, tradicionalmente paparicado por qualquer candidato”.
A verdade é que somos politizados e bastante dispostos a participar do debate no jogo democrático. Ao invés de paparicamentos temos conquistado respeito, o que nos dá o direito de não sermos chamados de “laranjas podres”.
Somos uma classe importante, sim, e que tem forças para combater uma propaganda cheia de ilusões marqueteiras. Não há dúvidas de que nós professores temos participado das alterações representadas nas pesquisas. A última, inclusive, aponta uma diminuição de 13 para 5 pontos na diferença entre Osmar e Beto. Datafolha de 16/10.
Massacrado pelos monopólios da velha mídia, desinformado sobre o país, vitima das mentiras reiteradas da oposição midiática, o povo brasileiro demonstra nestas eleições um grau de consciência política e de maturidade cívica exemplares. Consegue distinguir o essencial do secundário, opta pela prioridade das políticas sociais sobre a absolutização do ajuste fiscal, condena os políticos responsáveis pelos governos desastrosos do passado, opta pelo Estado como indutor do crescimento e da distribuição de renda.
Reconhece em Lula e na Dilma os principais responsáveis pelas mudanças positivas que o pais vive, execra a FHC, a Serra, à Globo e aos seus aliados da velha mídia, não dando bola para seus factóides e deixando-os na solidão do seu golpismo. O povo reconhece os avanços principais que o país teve, assiste os programas da Dilma na TV, comparece aos comícios de Lula e da Dilma, e se reconhece, sabe que tudo o que se mostra e se diz reflete as mudanças de vida que estão vivendo no seu mundo sofrido e até aqui abandonado.
Não deram ouvidos para as infâmias da oposição e sua velha mídia, de preconceitos contra as mulheres – que hoje majoritariamente também preferem Dilma -, contra os lutadores contra a ditadura, contra os movimentos sociais e os militantes políticos, que saem todos engrandecidos com o apoio popular.
Derrotados saem a Globo, a Veja, a FSP (Força Serra Presidente), o Estadão e todos os arautos do golpismo, do velho Brasil, das oligarquias tradicionais, com seus métodos de manipulação da opinião pública e de desprezo e discriminação pelo povo e por tudo o que é popular.
O povo percebe a diferença entre a demagogia opositora, não dá ouvidos a quem pretende ser eqüidistante dos dois campos em luta, relega ao ostracismo os que pretendem que nada mudou no Brasil. O povo não é bobo, encontra em Lula e na Dilma as vertentes do futuro, reconhecem a valorização do Brasil, sentem a auto-estima revigorada, superam o desalento, voltam a acreditar em si mesmos e no país.
Por isso o povo impõe a mais acachapante derrota às elites tradicionais, com sua velha imprensa, seus políticos caducos, sua demagogia superada. Derrota os caciques tradicionais que os enganaram durante tanto tempo, mandam FHC para o exílio e Serra para a aposentadoria, os tucanos para o museu da história.
“Esse povo de quem fui escravo, não será mais escravo de ninguém”, pregava e previa o Getúlio na sua Carta Testamento. Quem não reconhece esse povo, que começa a construir sua soberania, sua emancipação, seu destino próprio, suas formas solidárias de vida, está de costas para o país e merece ser derrotado fragorosamente nas eleições deste ano.
Somos nós, professores, que temos que lutar pelo que acreditamos... não podemos voltar atrás, jamais!!!
Pense nisso quando for votar e conversar com outros sobre os rumos políticos e educacionais que vamos decicir em 03 de outubro. Divulgue, por favor, as informações abaixo.
Repassando...
Foi realizada uma reunião, nesta segunda-feira (23 de agosto) com a UNDIME-PR, (União dos Dirigentes Municipais de Educação do Paraná), juntamente com os candidatos ao cargo de Governador do Estado do Paraná: Osmar Dias (PDT) e Beto Richa (PSDB) para apresentarem suas propostas sobre Educação.
Por ocasião, foi observado, por todos que lá estavam, que dentre os articuladores da campanha de Beto Richa (PSDB), a principal assessora de Beto Richa, sobre assuntos relacionados à Educação é ninguém mais, ninguém menos do que Zélia Maria Lopes MAROCHI a (Zélia Marochi), que, por "coincidência" foi superintendente de Educação na gestão da ex-secretaria de Educação do Paraná, Alcione SALIBA, durante o Governo Lerner. (lembram?aquele que nos deixou 8 anos sem aumento de salário????)
Dessa forma, podemos perceber que é iminente a possibilidade de nosso Estado ser novamente “GERENCIADO” por Zélia Marochi, Saliba, e todo o grupo que com elas estiver, trazendo os velhos e malignos discursos da Qualidade Total na Educação, estimulando a competição e não a colaboração entre diretores e professores, o da Clientela de alunos, meramente clientes de uma "escola empresa", o da Reciclagem de professores, como se fossemos lixo, o da Capacitação pela Motivação, sem qualquer conteúdo pedagógico e o discurso dos Amigos da Escola, que isenta o Estado sobre as responsabilidades sobre a Escola Pública e consequentemente o teremos o Esvaziamento de Conhecimentos em nossas escolas.
Mas o pior ainda, vocês não sabem......adivinha quem mais chegou acompanhando o Beto, além da Zélia Marochi????? Luciano Mewes....sabe quem é ele??? é um dos responsáveis pelo desvio das diárias na SUDE....o sonho de consumo dele sempre foi ser Secretário de Educação...estaríamos fritos se isso acontecesse, pois ele se diz ser "evangélico" e dessa forma envergonha a sua própria igreja, pela postura profissional e pessoal (que nem vou contar aqui detalhes) que tem.Quando chegou na sala e deu de cara com a atual Secretária de Educação, Profª Yvelise, ele levantou o braço do Beto Richa, como se estivesse mostrando um troféu, querendo dizer, que ela o mandou embora, mas agora ele está com o Beto. Vamos e venhamos, é muito desaforo e vulgar por parte dele.
Já passei por muitos governos, dentro da educação, estando nas mais diversas posições, e não podemos negar que se esse Governo não fez 100% do que gostaríamos, foi porque ficamos 9 anos estagnados e andando p trás, ou tendo que andar com as próprias pernas, pois ficamos largados á nossa própria sorte, tendo que terceirizar as nossas salas de aula p escolas de informática e outros tipos de cursinhos ou mesmo se juntando a ONG’s, fazer Bingos e rifas,para juntar um pouco dinheiro extra para fazer melhorias nas nossas escolas. Vamos divulgar issoooo
Não podemos esquecer que o Paraná está entre o melhor do país, segundo os resultados obtidos pelo estado no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) deste ano. O ensino médio das escolas públicas paranaenses alcançou o melhor desempenho nacional, com pontuação de 3,9 – numa escala em que a nota 6 é considerada muito boa, equivalente ao desempenho de nações desenvolvidas (a meta brasileira é atingir essa pontuação em 2022). No ensino fundamental, o estado ficou em quarto lugar, com 4,1 pontos. Curitiba também foi destaque com a maior nota (5,7) entre as capitais nos anos iniciais do ensino fundamental – da 1.ª à 5.ª série.
Esperamos que todos os professores do Paraná percebam que corremos o risco de estar entregando a Educação Pública do Paraná nas mãos da Iniciativa Privada.
Por favor divulguem entre seu colegas, principalmente os mais jovens no magistério.
Não podemos por a perder todas as conquistas e avanços na Educação do Paraná.
A via do desespero pode custar caro a Serra. Além das ações judiciais, começam a circular informações dando conta de algumas “coincidências” entre a data em que teria ocorrido a violação do sigilo fiscal de sua filha e o período da guerra surda que travou com o ex-governador de Minas, Aécio Neves.
Marco Aurélio Weissheimer
O corregedor-geral eleitoral, ministro Aldir Passarinho Junior arquivou nesta quinta-feira a representação da coligação O Brasil Pode Mais, do candidato José Serra (PSDB), que pedia a cassação do registro da candidatura de Dilma Rousseff (PT) à presidência da República. Na representação, a coligação de Serra acusa Dilma e outras seis pessoas (o candidato ao Senado por Minas Gerais, Fernando Pimentel, os jornalistas Amaury Junior e Luiz Lanzetta, o secretário da Receita Federal Otacílio Cartaxo, e o corregedor-geral da Receita Federal, Antonio Carlos Costa D’Ávila) de “usar a Receita Federal para quebrar o sigilo fiscal de pessoas ligadas ao candidato Serra, com a intenção de prejudicá-lo em benefício da campanha da candidata Dilma”.
Como se sabe, Serra não apresentou nenhuma prova para sustentar essa grave acusação. Ou, nas palavras do ministro Aldir Passarinho Junior, não apresentou “concreta demonstração” de que a candidata Dilma Rousseff teria se beneficiado dos atos. Além disso, o ministro não reconheceu a existência de “lesividade na conduta capaz de desequilibrar a disputa eleitoral”. Os fatos narrados, destacou ainda o ministro, podem “configurar falta disciplinar e infração penal comum que devem ser apuradas em sede própria, que não é a seara eleitoral”.
Mas Serra já havia atingido seu objetivo: criar um factóide que, graças aos braços midiáticos de sua campanha, ganharam as manchetes dos grandes jornais e uma edição do Jornal Nacional de quarta-feira que, pelo seu evidente caráter manipulatório, lembrou aquela feita no famoso debate entre Lula e Collor. Em queda livre nas pesquisas, sem programa, sem discurso e mudando de linha a cada semana, o candidato José Serra partiu para o vale-tudo. Queria que o episódio ganhasse manchetes para ele usar no horário eleitoral. Conseguiu isso. Esse é, no momento, o programa que o candidato tucano tem a oferecer ao Brasil.
A estratégia desesperada pode ter o efeito totalmente inverso ao esperado. Maria Inês Nassif escreveu hoje no Valor:
“É tênue a separação entre uma acusação – a de que Dilma é a responsável pela quebra de sigilo – e a infâmia, no ouvido do eleitor. Quando a onda está contra o candidato que faz a acusação, um erro é fatal. Essa sintonia não parece que está sendo conseguida. O aumento da rejeição do candidato tucano, desde o início da propaganda eleitoral, é alarmante.”
Pior ainda: além do aumento da já crescente rejeição ao candidato tucano, o episódio pode expor a montagem de uma farsa (e de um crime) com cúmplices espalhados em várias redações brasileiras. A farsa: a campanha de Dilma teria quebrado o sigilo fiscal da filha de Serra. O crime: as acusações desprovidas de prova e fundamento dirigidas contra a pessoa da candidata. O PT anunciou hoje que decidiu entrar com duas ações judiciais contra Serra e uma contra o presidente do PSDB, Sérgio Guerra.
A primeira medida é uma representação no TSE, com base no artigo 323 do código que regula as eleições. O crime previsto é imputar fato sabidamente não praticado pelo adversário para atingir objetivos nas eleições. Neste caso, segundo José Eduardo Cardozo, secretário geral do PT, Serra e o PSDB sabem que o PT e a campanha de Dilma Rousseff não tiveram qualquer participação na quebra de sigilo de pessoas ligadas aos tucanos, mas assim mesmo fazem acusações. Além desta, o partido decidiu entrar com outra ação judicial contra José Serra por calúnia, difamação e injúria. A última medida é a representação na Procuradoria Geral da República contra Sérgio Guerra, por crime contra a honra devido às repetidas declarações de Guerra, acusando o PT e Dilma de serem os responsáveis por quebras de sigilo fiscal.
A estratégia pode custar caro a Serra. Além das ações, começaram a circular informações nesta quinta-feira, dando conta das incríveis “coincidências” entre a data em que teria ocorrido a violação do sigilo da filha de Serra e a da guerra que o ex-governador de São Paulo travou com o ex-governador de Minas, Aécio Neves. Essa guerra tem uma trama novelesca, envolvendo confusões policiais em festas, acusações de agressões, chantagens e investigações especiais realizadas pelos dois lados em disputa. Pois ambas as coisas, a quebra do sigilo com uso de procuração falsa e o ápice da guerra Serra-Aécio ocorreram no mesmo mês, setembro de 2009.
Conforme foi amplamente noticiado, o jornal Estado de Minas estaria, neste período, preparando uma “investigação especial” sobre Serra. O jornalista Amaury Ribeiro Jr., que trabalhou no Estado de Minas, anunciou o lançamento de um livro sobre os bastidores do processo de privatizações. Esse trabalho atingiria Serra e aliados. Em novembro de 2009, o blog de Juca Kfouri publicou uma nota afirmando que Aécio teria agredido a namorada em uma festa. A virulência desta guerra pode ser atestada em um inacreditável artigo de Mauro Chaves (jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e pintor, conforme ele mesmo se apresenta), publicado no jornal O Estado de São Paulo em 28 de fevereiro de 2009. O recado do artigo, que critica as aspirações políticas de Aécio Neves, está resumido no título “Pó Pará, governador?” A expressão aparece na última linha de modo inteiramente abrupto, como quem não quer nada:
O problema tucano, na sucessão presidencial, é que na política cabocla as ambições pessoais têm razões que a razão da fidelidade política desconhece. Agora, quando a isso se junta o sebastianismo - a volta do rei que nunca foi -, haja pressa em restaurar o trono de São João Del Rey... Só que Aécio devia refletir sobre o que disse seu grande conterrâneo João Guimarães Rosa: "Deus é paciência. O diabo é o contrário." E hoje talvez ele advertisse: Pó pará, governador?
Curiosamente, o jornal O Estado de Minas, ligado a Aécio, deu pouquíssima repercussão ao caso da filha de Serra. O mesmo ocorreu com o Correio Brasiliense. Ambos os jornais pertencem ao mesmo grupo, os Diários Associados. Ao contrário da imensa maioria dos jornalões brasileiros, não julgaram o tema relevante. Coisas da nossa brava imprensa, não é mesmo?
Nada disso importa a Serra, o homem que Pode Mais. O ex-governador de São Paulo é conhecido por isso: acredita que pode qualquer coisa. Pode? O povo brasileiro dará a resposta. E, pegando carona na expressão do articulista do Estadão, ele poderá dizer:
Pó pará, Serra!
Marco Aurélio Weissheimer é editor-chefe da Carta Maior (correio eletrônico: gamarra@hotmail.com)
Na reta da chegada, seria possível uma onda vermelha?
Lideranças como o MST e Leonardo Boff vêm afirmando que é preciso afastar o risco tucano. Essa será a missão nas próximas semanas, para quem acredita num Brasil dinâmico, como pressente tão bem o povo em sua sabedoria, que parte de sua vida real, tantas vezes sofrida e agora sentindo mudanças.
Luiz Alberto Gómez de Sousa
Duas observações iniciais. Não tenho militância partidária. Aposto, antes de tudo, num processo de mutações sócio-políticas a largo prazo e na caminhada das forças populares. Acompanho com interesse os movimentos sociais e sinto que eles são determinantes, como mediadores das forças que atuam na sociedade, ainda que alguns deles, presos a análises ideológicas abstratas, tenham descolado do povo real. Já adianto que isso não se deu no MST, sempre ligado às bases. Além disso, em certas ocasiões, principalmente no começo de novos processos históricos, os partidos e o governo também podem chegar a ter especial importância, dando oportunidade às forças sociais e a seus movimentos de se manifestarem e crescerem. É aí que o Estado, como sociedade política, pode assumir um papel relevante. No caso do Brasil, ele esteve presente em momentos de construção da nação e daí os esforços de alguns para desconstruí-lo e reduzi-lo a um estado mínimo.
A segunda observação é que, sentindo a sensibilidade mais profunda da nação e de seus apoios sociais concretos, dá para perceber que transformações radicais já começaram a se dar com firmeza durante o período do governo Lula. É preciso que elas sigam adiante, apoiadas por próximos mandatos, para tornar o processo social sempre ascendente e cada vez mais sólido. Há tempos históricos únicos, como a Holanda no século XVII ou a Inglaterra no XIX, em que a nação, com as contradições e imperfeições inevitáveis, passou a outro patamar. Pareceria que o Brasil atravessa um momento desses. E então Estado, partidos, movimentos, têm um papel fundamental.
São processos que dependem de forças nos subterrâneos da sociedade (underground), que se expressam através de diferentes atores, movimentos ou lideranças. Neste momento preciso do Brasil, as forças populares e o PT têm cumprido, com Lula, um papel protagonista. Não é a toa que todas as baterias dos setores até agora dominantes se voltam contra eles, principalmente contra o PT, retomando ou reinventando velhos ou novos dossiês e todo tipo de denúncias. O próprio partido, às vezes, pode ter fornecido material para os ataques, mas na maioria das vezes estes são forjados ou adulterados. E existem dentro do PT, há que convir, nichos de uma “nomenclatura” de velhos hábitos que nem sempre ajudam. Há também, na oposição de esquerda, aqueles que aguardavam milagres que não tinham condições objetivas de se realizar e se desiludiram proporcionalmente a suas esperanças inalcançáveis. Eles se unem, mesmo sem querer, às azedas críticas conservadoras.
No centro de processo está um dirigente genial, que encarna magistralmente o papel de catalisador de possibilidades. Fora do Brasil isso é mais bem entendido do que aqui, por parte de meios de comunicação que se auto-proclamam “formadores de opinião”. Como seria possível tal pretensão, quando a maioria acachapante da população caminha em outras direções? Há neste momento um encontro raro na história entre bases reais e uma liderança que saiu de dentro delas. Uma gangorra de alternância política agora não ajudaria, a não ser para politólogos que só se fixam em aspectos institucionais em suas análises acadêmicas, fora de um contexto histórico real.
A popularidade de Lula é esmagadora, assim como o crescimento de Dilma nas pesquisas. Esta última provou ter vôo próprio e tem demonstrado nos últimos anos, enorme capacidade de propor e de realizar. Depois de um tempo de carisma fulgurante, precisamos talvez de um esforço de consolidação em alto nível e especial tino administrativo. Os meios de comunicação atucanados tudo fizeram para negar (lembram-se da Globo com as diretas?), mas aos pouco vão tendo que aceitar a realidade. E agora se voltam para a eleição em outros níveis. Estes é que devem então ocupar a nossa atenção nas próximas semanas.
O problema no futuro imediato não será o PSDB, na sua função normal, numa democracia, de ser oposição, mas o PMDB, com dentes aguçados, pensando em uma possível co-habitação. Este já conseguiu colocar como candidato a vice-presidente um político tradicional, incolor porém matreiro. Dá a impressão de que o próprio Lula – ou alguns de seus assessores – não acreditavam na consistência do processo e entraram rapidamente em alianças ambíguas.
Foi um erro o PT não ter candidatos próprios no Rio de Janeiro e em Minas Gerais que, bem apoiados, poderiam ter sido alternativas reais (no caso do Rio não é a primeira vez que ocorre esse erro, imposto desde uma paulicéia míope). Resta-nos aqui votar em Sérgio Cabral e, em Minas, fazer um esforço especial em Hélio Costa, com a vantagem deste último ter, como companheiro de chapa, um político do valor de Patrus Ananias. Haveria que apostar fundo em São Paulo na eleição de Mercadante, que está em ascensão (lembram-se de Erundina nas últimas semanas?). Outro desafio está no Rio Grande do Sul, para Tarso Genro já vencer no primeiro turno, pois num segundo corre perigo com a união dos adversários. Temos eleições que vão bem, com o PT ou aliados confiáveis, como no Acre, na Bahia, em Pernambuco, Ceará ou Sergipe.
Há que dizer que as alianças, dependendo de quais sejam, podem trazer benefícios e uma dimensão pluralista. Um partido isolado e intolerante arrisca cair no autoritarismo ou resvalar no clientelismo. Alianças com o PSB de Eduardo Campos, o PC do B e de setores do PDT podem ser saudáveis. Por outro lado, alguns nanicos podem atrapalhar, pela sede de poder. No próprio PMDB há lideranças respeitáveis e de valor como a de Pedro Simon, mas a seu lado temos Jader Barbalho, Renan Calheiros, o inefável Sarney e a figura de Orestes Quércia, que pelo menos apóia Serra e está do outro lado. Ciro Gomes anda calado, fazendo campanha para seu irmão no Ceará, mas é um nome que seria útil no futuro. Que fim inglório o do histórico partidão, travestido num conservador e raivoso PPS!
Um escândalo é o que ocorre no Maranhão. Ali Jackson Lago, administrador eficiente, foi derrubado pelo clã Sarney. E infelizmente, ressentido, quis ser candidato juntando-se a Serra. Ele possivelmente cairá logo adiante pela Ficha Limpa. Mas o governo não precisava apoiar acintosamente Roseana, quando tem também ali, na base aliada, um Flávio Dino, do PC do B, que poderia, ao eleger-se, limpar o estado de um coronelismo anacrônico. Os votos de Jackson poderiam ajudar. Será que o eleitorado, mesmo num estado difícil como o Maranhão, não fará essa escolha? Lembremos que no Pará, no passado, as bases se rebelaram com decisões da direção petista.
O outro grande e fundamental esforço é com senadores e deputados. Assim, no Rio, seria importante, por exemplo, eleger Lindberg Farias para senador, Alessandro Molon ou Antonio Carlos Biscaia para deputados federais, Robson Leite para deputado estadual. Seria tempo, nas várias instâncias eleitorais, de preparar o declínio inglório de certas lideranças. Para isso há que aproveitar o grande momento do Ficha Limpa, que a sociedade praticamente impôs aos partidos. Um líder do governo ousou dizer que esse projeto não era prioridade do estado, apenas da sociedade, e por isso não tinha a mesma prioridade de outros projetos. Ainda bem que o fizeram calar a tempo.
As eleições se resolvem nas últimas semanas. É sempre perigoso cantar vitória antes do tempo. Mas com imaginação e um pouco de audácia, poderíamos apostar numa onda vermelha, na reta de chegada. É hora de colocar as energias em todos os níveis eleitorais. Há uma grande tarefa de melhorar o legislativo, literalmente avacalhado, agora que o Ficha Limpa vem para dar uma varredura geral. O eleitorado poderia afastar certos candidatos sem esperar decisões judiciárias. Afinal, ele é o próprio autor do projeto, através de movimentos sociais e de mobilizações massivas.
É difícil falar de Marina Silva, grande liderança que, como Lula, saiu das bases da sociedade. Quando a conheci, passei a ter por ela uma grande estima, admirando sua inteligência e sensibilidade. Mas o fato de ser empurrada para a disputa do poder, fez com que suas intuições e força telúrica em corpo franzino, perdessem a limpidez das propostas que trazia. Foi levada a falar de tudo um pouco, sem marcar uma diferença expressiva e criativa. Teria sido mais útil se tivesse ficado como uma voz lúcida e livre no cenário nacional e internacional, no parlamento ou em cargo executivo e não arrastar-se monotonamente nas pesquisas entre 8 e 9% do eleitorado. Se essa cifra correspondesse a uma real sensibilidade ecológica, até que seria muito bom. Mas há ali misturados votos negativos de rejeição e também, ainda que menos visível, um papel que a velha UDN jogou no passado, com propostas puristas que caíam muito bem em certos meios sociais. E, via Gabeira, encontra indiretamente Serra.
Alguns, com viseiras ideológicas abstratas e uma visão absolutista, continuam com a cantilena de que todos os candidatos principais são iguais, negando o processo histórico em marcha. Todos eles somados apenas poderiam ultrapassar o 1% do eleitorado. No fundo, parecem estar dizendo que o povo não sabe votar e que é preciso apostar numa elite iluminada e vanguardeira que um dia imporia a luz.
Felizmente lideranças expressivas, como o MST e Leonardo Boff, vêm afirmando que é preciso afastar o risco tucano. Essa será a missão nas próximas semanas, para quem acredita num Brasil dinâmico, como pressente tão bem o povo em sua sabedoria, que parte de sua vida real, tantas vezes sofrida e agora sentindo mudanças. Na urna já seria tempo de pôr em prática a Ficha Limpa. E há, sobretudo, que dar liberdade a Dilma para fazer um governo com menos amarras que o atual, com outro legislativo que possa defendê-la melhor de alianças corrosivas e que reabilite esse poder, essencial numa democracia.
Luiz Alberto Gómez de Sousa, sociólogo e ex-funcionário das Nações Unidas, é diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Cândido Mendes.
A direita sempre foi derrotada por Getúlio. Em 1930, pelo movimento popular que deu inicio ao Brasil moderno. Em 1945, o candidato de Getúlio derrotou o brigadeiro Eduardo Gomes, o próprio Getúlio o derrotou em 1950 e JK, com o mesmo bloco de forças de Getúlio, depois da sua morte, derrotou o general Juarez Távora.
Significativamente a direita sempre apelou para militares. Era o seu espaço de oposição – o Clube Militar, os quartéis. E sempre perdeu. Ia perder de novo em 1960, de novo com um militar de origem, Juracy Magalhães – que foi o primeiro ministro de relações exteriores da ditadura, autor da frase “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, avô de dirigente tucano baiano -, mas apelou para um aventureiro, de fora dos seus quadros – Jânio. Ganhou, com o símbolo da vassoura e o lema do “Tostão contra o milhão”, mas não levou , como se sabe.
Sempre que perdeu, a direita – que tinha no corvo-mor, Carlos Lacerda, seu principal expoente – apela para conclamar os militares para o golpe. A famosa afirmação de Lacerda: “Juscelino não pode ser candidato. Se for, não pode ganhar. Se ganhar, não pode tomar posse. Se tomar posse, deve ser derrubado.”, expressa, em estado puro o golpismo da direita dos corvos.
Hoje os militares não se prestam para isso e os corvos contemporâneos apelam para o Judiciário, na busca desesperada de impugnar a candidatura vitoriosa da Dilma. E a Marina se soma a esse coro. (Ninguém mais que se julgue de esquerda, progressista, democrático, pode continuar a apoiar a Marina, quando ela se revela abertamente de direita, golpista.)
Nada de surpreendente. Uma direita dirigida por jornais corvos só poderia desembocar no golpismo. Tentar ganhar no tapetão ou tentar desqualificar o processo eleitoral – ultimo apelo da tucanalhada. Perderão como perderam sempre contra o Getúlio, contra o JK e contra o Lula. Fim melancólico de um partido que se pretendia social democrata, implantou o neoliberalismo no Brasil e terminou como corvo golpista.
BRASÍLIA (Reuters) - A candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, voltou a defender neste domingo as políticas de reforma agrária e de assentamento feitas no âmbito federal e ironizou críticas do candidato tucano José Serra às ações do governo para o setor.
"Essa não é uma discussão que eu vou fazer com o meu adversário. Essa discussão eu faço com os agricultores desse país e com os assentados, porque eles sabem que nós fizemos uma política pró-agricultor", disse Dilma a jornalistas durante visita à Feira do Produtor, em Vicente Pires (DF), cidade próxima à Brasília.
"Há uma diferença entre quem faz e quem fala durante a eleição. O nosso governo fez, é por isso que ele é reconhecido," acrescentou a candidata, quando questionada sobre as críticas feitas por Serra (PSDB) a respeito das políticas agrárias do governo.
Dilma Rousseff cumprimenta eleitorado em Vicente Pires, cidade satélite de Brasilia (DF), neste domingo
Para exaltar a melhoria na renda e na qualidade de vida da população rural durante o mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma não fugiu da profusão de números com que tem abastecido seu discurso de campanha. Também prometeu criar uma superintendência para tratar especificamente da habitação rural.
"Eles (os dados) mostram como uma política que nós vamos continuar, de crédito, assistência técnica, seguro e de garantia, por exemplo, de aposentadoria rural, eleva a renda no campo brasileiro e, além disso, é responsável por uma das maiores reduções de desigualdade no Brasil", disse.
"Essa política de elevar a renda na região rural do Brasil é uma das mais importantes para a gente cumprir um desafio que eu acho que é o maior do meu período: erradicar a miséria. Por que uma parte terrível da miséria estava na zona rural do Brasil", defendeu a candidata.